Ao olhar para a história recente da conquista do mundo pelo Ocidente, pode certamente parecer ousado – ou ingénuo – pensar numa missão cristã numa perspetiva descolonial.
No entanto, se pensarmos no movimento cristão das origens, nas fontes bíblicas e patrísticas dos primeiros séculos, alguma inspiração terá de nos surgir, mesmo que tenhamos de lidar com aquilo em que o cristianismo se tornou ao longo dos séculos e, ao mesmo tempo, com aquilo em que as igrejas são chamadas a voltar a ser no presente e no futuro.
Em primeiro lugar, devemos considerar que a missão cristã moderna, aquela que conhecemos e que faz parte do nosso imaginário, é de facto estruturalmente colonial. O que entendemos por «colonial»?
Para responder, poderíamos recorrer a quatro substantivos: expansão (expansión) europeia ultramarina, que marca a passagem do Mediterrâneo para o Atlântico e o início da globalização por parte do Ocidente; exploração (explotación) económica dos recursos minerais, agrícolas e humanos em benefício das metrópoles, das companhias mercantis e das nações colonizadoras; expropriação política dos povos originários, dos seus territórios, da sua organização social e da sua cultura; extermínio como estratégia sistemática de eliminação física, simbólica e espiritual do outro, negação do seu ser, afirmação da sua animalidade e subalternidade, naturalização da classificação racial.
Ao contrário do colonialismo entendido como evento/processo histórico, a colonialidade apresenta-se como uma estrutura subjacente à modernidade ocidental, ou como o seu «lado obscuro», caracterizado não só pela agressão explícita, mas também pela agressão do conhecimento, do ser e da visão do mundo. Estas violências determinam as relações políticas, económicas e socioculturais entre os povos até aos dias de hoje, sob o patrocínio de diversos projetos de domínio.
Se o carácter colonial é determinado em primeiro lugar pela expansão, o caráter descolonial será caracterizado pela tentativa de um encontro autêntico com o outro. A expansão em termos de conquista não foi de forma alguma uma abertura ao mundo: foi antes a afirmação da própria identidade sobre a alteridade. Passar do domínio ao encontro significa respeito, reconhecimento, diálogo, hospitalidade, amizade: significa passar da ansiedade do «salvacionismo» para a tranquilidade da convivência e da partilha; da militância heroica para a kenosis da irrelevância; da glória do triunfalismo para o desaparecer silencioso no universo do outro.
Em segundo lugar, a exploração colonial sempre foi um processo extrativista não apenas material, mas também e sobretudo simbólico, cultural e espiritual. O outro, para o Ocidente, é um objeto a ser estudado. Uma missão numa perspetiva descolonial esforçar-se-á, pelo contrário, por ver no outro um sujeito com quem tecer novas relações e de quem aprender a desaprender a mania ocidental de saquear, dissecar, apropriar-se de tudo o que encontra à sua frente, para depois reaprender uma nova abordagem à realidade da qual fazemos parte, juntamente com a alteridade que nos confronta.
Um terceiro aspeto remete para a apropriação colonial, em que o missionário estrangeiro pretende inculturar-se e inculturar a «sua» mensagem, quando, pelo contrário, o processo de inculturação deveria dizer respeito exclusivamente ao interlocutor. O Papa Francisco recorda em Querida Amazonia que «somos chamados a participar como convidados e a procurar, com extremo respeito, caminhos de encontro que enriqueçam a Amazônia. Se queremos dialogar, devemos fazê-lo, antes de mais nada, com os últimos (…) Eles são os principais interlocutores, com quem, antes de mais nada, devemos aprender, a quem devemos ouvir por um dever de justiça e a quem devemos pedir permissão para poder apresentar as nossas propostas» (QAm 26).
Por fim, perante o extermínio que continua a ostentar os seus massacres, a missão cristã deve, mais do que nunca, promover uma cultura profunda e radical da vida através de uma pedagogia descolonial, comprometendo-se a desmascarar toda a ideologia e teologia de domínio, desenvolvendo instrumentos que ajudem a identificar posturas hegemónicas, incluindo as próprias, propondo caminhos pacientes de descolonização das subjetividades e das relações, colocando-se ao serviço das causas de libertação dos povos subalternos como aliada de confiança.
Nunca devemos esquecer que o conteúdo fundamental de toda a missão cristã é a oferta da vida em plenitude para todos (DAp 361), pois não há nada mais descolonial do que «perceber quanto vale um ser humano, quanto vale uma pessoa, sempre e em todas as circunstâncias» (FT 106).
